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730 dias em São Tomé e Príncipe

por Médicos do Mundo, em 18.09.13

 

 

Crédito foto: Joana Sanches


por Ana Martins
Coordenadora do Projecto Viver Positivo” em São Tomé e Príncipe, de Agosto de 2011 a Agosto de 2013 


A primeira recordação que tenho de São Tomé e Príncipe é do dia em que cheguei: o dia 5 de Agosto de 2011. Depois de uma viagem de seis horas e de uma noite sem dormir, desci as escadas do avião e quase dei um passo atrás quando senti o embate daquele bafo quente e húmido que seria o espaço dos meus movimentos durante os próximos dois anos.


Descobrir a ilha, as pessoas, os seus ritmos (o seu característico “leve-leve”), a música, a dança, a comida, o mar azul e a vegetação verde e exuberante é uma experiência muito enriquecedora. Mas a vida numa ilha também tem outro lado. Com o tempo, apercebemo-nos de que a ilha tem limites, que não há para onde fugir e toda a gente tem, por vezes, vontade de sair, de mudar de ares. Em São Tomé, não há distâncias muito longas para percorrer; a certa altura, fica-se com a sensação que não há caras novas para conhecer, que não há sítios novos para ver (e isso nem sempre é verdade) e ganhamos a consciência que estamos mesmo numa pequena porção de terra rodeada de mar.


Temos saudades dos amigos e da família, de ir ao cinema, de ver um concerto, de ir ao teatro ou de ir beber um copo com os amigos de sempre. Mas em São Tomé também há concertos de vez em quando, também há teatros e outras actividades de vez em quando e, embora em alguns momentos tudo pareça fazer-nos falta, noutros também percebemos que fizemos amizades, que criámos rotinas e sítios preferidos na ilha. Já não estranhamos a música, já conhecemos os pratos típicos, já entendemos uma ou outra palavra do dialecto forro. Temos uma casa e até um cão que nos espera contente cada vez que chegamos. Viver na ilha faz-nos perceber que não precisamos de muita coisa que julgávamos precisar.


Em São Tomé o tempo arrasta-se e não damos conta de que ele passa. Nem sequer há estações do ano para nos fazer lembrar que o tempo existe. Há uma Gravana em que durante 3 meses o tempo fica um pouco mais fresco e raramente chove mas, para além disso, não há grandes diferenças. Talvez o tempo numa ilha tenha sempre uma dimensão diferente. Uma amiga que me foi visitar a São Tomé escreveu um texto sobre o que sentiu durante a visita; nele dizia que “o espaço apertado e o tempo lento fazem mover histórias” e que isto deve ser um encantamento das ilhas.

 

Num espaço tão pequeno como São Tomé e Príncipe, as relações são rápidas e as pessoas tornam-se próximas e familiares muito depressa. Num espaço tão pequeno até as pessoas que conhecemos no contexto do trabalho se tornam, de alguma forma, próximas de nós muito rapidamente.


Apesar de a ilha ser muito bonita, nela existem uma série de contrastes que chocam. Entre o deslumbramento que sentimos com a beleza natural de um país ainda tão pouco explorado, deparamo-nos com a tristeza por observar as dificuldades e a pobreza em que muitas pessoas vivem. Através do projecto “Viver Positivo”, tive a oportunidade de ter um contacto próximo com um grupo de pessoas que vivem com VIH/SIDA, o que foi muito gratificante porque pude acompanhar de perto as necessidades que sentem e observar o impacto que as actividades do projecto tiveram nas suas vidas. Espero que esse impacto perdure de alguma forma no tempo. Gostei muito de conhecer cada uma delas e foi muito penoso perceber as dificuldades em que vivem, que não podia fazer tudo por elas e que depositavam muita esperança em nós, nos que para ali vamos trabalhar. É preciso fazer uma gestão, nem sempre fácil, das expectativas que depositam em nós e do que temos, realmente, para oferecer.


Quando damos, normalmente, recebemos de volta. Mas é preciso estarmos bem para dar, é preciso irmos inteiros para esta experiência. Quando voltamos é que já não voltamos inteiros. Fica lá uma parte de nós que durante algum tempo não queremos largar. 


Ana Martins colaborou como Coordenadora do projecto Viver Positivo” em São Tomé e Príncipe, de Agosto de 2011 até ao término do projecto em Agosto de 2013. Com este projecto, a Médicos do Mundo propôs-se incrementar a qualidade de vida das pessoas que vivem com VIH/SIDA em São Tomé e Príncipe, trabalhando para aumentar o apoio psicossocial e a assistência domiciliária e reduzir o estigma associado ao VIH/SIDA.

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publicado às 10:48



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